Há exatamente 10 anos eu estava partindo para Portugal onde cursei a pós graduação em Análise Financeira pela University of Porto Business School.

À parte do excelente aprendizado em finanças, aprendi muito sobre a cultura portuguesa, sobretudo em relação ao modo como os lusitanos lidam com a educação e, ao contrário do que reza a lenda aqui no Brasil, afirmo que de burro os portugueses não têm nada.

Elenco abaixo 6 coisas que aprendi sobre as universidades portuguesas que poderíamos pensar em adotar no Brasil.

1. Foi em Portugal onde descobri o verdadeiro significado do termo “se vira”. 

Mesmo com duas graduações e uma pós, eu nunca havia estudado de verdade no Brasil, aqui os professores sempre me levaram no colo. Se os alunos não entendiam, os professores explicavam de novo; se estava muito difícil, recorriam à coordenação que pedia para o professor pegar mais leve. Já em Portugal, se eu não entendia algo, eu que corresse para a biblioteca me virar sozinho. E isso foi ótimo! Desenvolvi um senso de responsabilidade o qual nunca tinha experimentado no Brasil.

 2. Portugal não tem livros técnicos em português.

Ao contrário do Brasil, o mercado editorial português é muito pequeno (são pouco mais de 10 milhões de hab.), não compensa traduzir um livro técnico de finanças que terá pouco mercado. Consequentemente, todo material de estudo disponível na biblioteca era em inglês.

3. Na pós-graduação, parte-se do pressuposto óbvio de que você domina o inglês.

Não é porque o curso é em Portugal que o inglês é dispensável. Parte do material de estudo vem todo em inglês. Inclusive cheguei a fazer provas em que algumas perguntas pediam para analisar um texto todo em inglês.

4. O professor é a autoridade em sala de aula e os alunos o respeitam.

Embora a turma de pós-graduação fosse pequena, tive a oportunidade de assistir algumas aulas da graduação em auditórios para mais de cem alunos e em nenhum momento vi o professor ter que chamar a atenção aluno por conta de barulho/conversa.

5. Os portugueses só começam a estagiar e trabalhar depois de formados.

Aqui no Brasil temos o costume de procurar estágio/emprego já nos primeiros anos do curso e passamos a faculdade toda dividindo nosso tempo entre trabalho e estudo. Em Portugal temos quatro ou cinco anos dedicados exclusivamente ao estudo e só depois os alunos pensam em trabalho. Você poderia pensar que isso é ruim e que o português é preguiçoso, mas a consequência dessa cultura é que o português chega ao mercado de trabalho com uma base muito mais sólida que o brasileiro, de tal modo que aqui as empresas precisam ficar constantemente investindo nos funcionários para que aprendam in company tudo aquilo que deveriam ter aprendido na faculdade e não aprenderam.

6. A Universidade não é para todos.

Em Portugal (e em diversos outros países desenvolvidos), a universidade é destinada para quem tem vocação acadêmica, já para quem tem vocação técnica existem uma série de outras possibilidades para desenvolvimento da carreira que não necessariamente refletem algum demérito de quem a segue. No Brasil, a oferta massiva de universidade não elevou o nível do alunos, mas rebaixou drasticamente o nível das universidades, as transformando em cursos técnicos de luxo que acabam não cumprindo direito nem a função acadêmica, tampouco* técnica.

* Curiosidade: em Portugal fui sacaneado pelos meus colegas quando escrevi “tampouco” e foi então que descobri que este é um termo exclusivamente brasileiro.

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